segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

liberdade

ato-me ao que liberta
sentimentos são múltiplos 
mas não minhas metas
sigo equívoca pelos caminhos
rastreio meu fim
amor há de todos os tipos
os bons e os maus vingam
amores bons me desencontram de mim
abrem asas no peito
amores maus me dobram sobre mim mesma
atiram dores à cara
todo amor tem seu ciclo 
nenhum me contém
quando nasço outra para ser no que transborda:
então estou inteira

domingo, 4 de dezembro de 2011

te espero no cume invisível de uma montanha infinita para nosso tamanho

então, de tudo, resto-me a mim...
a solidão é o preço a ser pago?
que valha a pena!
não se conquista impunemente a liberdade de não se deixar aprisionar pelas paixões, nem por si, nem por ninguém!
se hoje sou livre, é porque percorro os labirintos dos meus afetos revivendo-me a cada vez em cada beco de ilusão
pena de quem só pensa com o intelecto,
porque não bombeia sua razão com o sangue sujo do coração
pena de quem não pode pensar,
porque tudo lhe escapa pelas mãos, pelos olhos, pelos pulsos abertos a giletes em noites que não tiveram fim
eu não sei tudo, eu não sei nada
sei que pensar, sentir, estar
depende de viver sem se distrair demais,
de tomar a vida nos braços como se doma um leão,
não a cada dia, mas de uma única vez, por todas!
sou agora tão louca quanto Nietzsche quando calou para sempre,
tão louca quanto Sócrates ao ser condenado à cicuta,
quanto aquele que nada vê em si, nem além
pois tudo o que há, está sendo apesar:
se parar, a gente dança, se dançar, a gente para
para ver, é preciso olhar, para olhar, é preciso ver
tudo habita na relação impossível
entre parar-dançar-parar, ver-olhar-ver
será que você consegue chegar lá?
te espero no cume invisível de uma montanha infinita para nosso tamanho
meus dedos congelam, nariz, orelhas
não sinto meu corpo sob a cintura
nessa aventura de ir além,
você nada pode diante de minha coragem de viver a vida como um alpinista
que escala as alturas e desce sem levar consigo
mais que um coração cheio de pedras
para esvaziar assim que tocar o solo
um dia a gente se encontra
fora desses corpos que nos impelem um ao outro
então te conto
como é sentir a alma estando em tudo que existe sem se comunicar com nada
como a alma é a experiência de uma morte que de tão definitiva só assim dá sentido à vida
nenhuma flor que se preze
pressente quando fenece
nem percebe o perfume que exala durante
toda flor que vale a florescência
floresce sem por que
mesmo que nada fosse antes
mesmo que não seja em essência
mais do que resta em um instante
quem, por um momento que seja, se instala na tensão entre ser e existir
compreende que a vida inteira vale um único sopro quente do destino
e pode então prescindir do movimento que dispersa,
da verdade que inebria,
não como o vinho de Dioniso, mas como a certeza fria de Parmênides
não há caminhos que me conduzam
não há sendas sobre mim
meus passos abrem nos abismos
as estradas que percorro em vão
com ou sem você

reconciliação

meu coração, que tanto me cansa e desconsola
por andar descompassado, sem direção
de repente me conforta, fortalece
ao negar-se a um embate com a dor, recolher-se
e assim livrar-me de um fim indigno:
a mim, que além de um coração selvagem e apaixonado
tenho como princípio na vida
jamais matar ou morrer de dor

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

dádiva

meu corpo é marcado com iniciais maiúsculas
minha alma também
eu toda vivo o tempo de um amor maior
do que cabe na vida inteira
ofereço-lhe agora o que já tive:
recebe, pois é tudo seu!
contorno sua alma com minhas mãos
seu corpo com meu amor
abro sem reservas meu coração
mas não se impressione com nada disso
minhas mãos tateiam sempre a plenitude do instante
meu amor escorre entre as fendas da loucura
meu coração é um barco à deriva da paixão
sigo sem me deter no que retém
aceita então o que lhe dou com o peito aberto
resistente apenas a atentados armados
jamais a seus movimentos sinuosos
guarda com você meu beijo
meu sorriso ao encontrá-la em mim
vou além do que você pede agora
mas quem sabe o que virá depois?
pode fazer falta essa violência que me precipita para o seu corpo
a doçura que me cola aos seus lábios cada vez
fica com tudo
desfaz do que quiser quando bem entender
quanto a mim não esquecerei nunca 
que no seu corpo – e isso aprendi no meu
a carícia, para imprimir-se
tem que rasgar a pele sem ferir fundo
deslizar sob a superfície
penetrável em todas as direções
em qualquer sentido que seja

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

alto mar da loucura

nos seus olhos vi de repente
a imagem mais nítida de mim:
salva-vidas à deriva no alto mar da loucura

nas minhas mãos nos seus olhos

veja:
nas minhas mãos há um pássaro...
querendo voar nos seus olhos!

do gelo que quebra no chão derrete na água arde no fogo

de que matéria é feito este gelo
que bate quebra derrete arde
no chão na cara da vida na sua boca no meu peito
?

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

pela boca

meto pela boca
uma faca para cortar meu peito
para que antes de atingir o cerne
a faca rasgue o grito que o denuncia
e ele se traduza apenas
em sangue
despedaçamento

terça-feira, 25 de outubro de 2011

SacriFício


ferve na minha carne
uma vontade de anos
cada vez em você
adentro
labirintos
percorro
veredas azuis
mas que diabos
tem meu corpo
que gritar
teu nome
quando meu desejo
é descansar
de tudo
?
por que anjos
vem a paixão me golpear
agora
que já morri todas as vezes
que podia
?
será possível
que nem nos céus nem nos infernos
nem deuses nem demônios
zelem por mim
e me poupem de mais esse sacrifício
?
de verdade
não creio em mim
não creio em você
mas a vida cisma comigo:
me faz ver o que não há
!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

meio da vida


um ogro
logro
malogro do destino
verteu a fantasia
do meu coração sozinho
na calçada do seu olhar esquivo

desde então desatino

louco
bobo
troncho
bate errado
em meu peito
esse amor que é quase nada

dança nos meus olhos
a violência
do desejo entre nós
enquanto
nos seus se revela
a delicadeza
do que nos desata
de repente