sábado, 5 de dezembro de 2009

poNto Morto

o corpo reclama comida bebida cigarro sexo
eu dou
ele engole traga regurgita
seguimos assim
meu corpo e eu
desnudos e velados
na mesma cama
como amantes ocasionais
de uma vida inteira
sem nenhuma intimidade

quinta-feira, 23 de abril de 2009

uma FLOR no cimento

mas uma flor não brota no cimento
não brota, não brota
uma flor no cimento morre antes de nascer
morre
assim foi, morta
quase dentro ainda
sem acontecer
porque uma flor simplesmente
não brota no cimento
não brota
então como nasce a poesia
sem terra, sol, água
no chão de cimento, pura pedra
nada penetra, fura
concreto, dura dor
no meio do nada
na falta, brota
a poesia
que morre
dissemina-se
sem nascer

terça-feira, 20 de novembro de 2007

DestiNo

uma onda
ameaça inundar
a casa que te fiz por anos a fio com tanto amor e carinho

não deixarei de mantê-la dia a dia até que a onda a desabe
não sei quando ela virá
embora seja quase certo que virá
ela poderá desviar-se no horizonte
mas se chegar
se me levar de ti
se te levar para sempre
se levar a nossa casa
você há de ter tido tudo o que teve nesse tempo
e eu hei de ter podido dar-te isso

PoESia para nÃo mORRer


para recobrar o ar que me falta
toda vez que o mundo à minha volta
continua, desenvolve, prossegue
num encadeamento quase perfeito
entre necessidade e acaso
como se toda a vida não fosse
sob todas as formas possíveis
uma pedra no caminho da morte
como se toda morte não estivesse
sempre à espreita, presente


para estancar, romper
a lógica, a seqüência, o fluxo
dos atos, das palavras, dos desejos
que se repetem, reproduzem
proliferam sucessivamente


para cortar o fio da história
surpreender a vida no átimo de desfazer-se


para sangrar, escorrer na morte
que se faz a todo tempo


simplesmente para me certificar
de toda e qualquer existência
invento minha poesia